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LULADEPELÚCIA
A série de trabalhos, que tem como base a imagem do presidente, surgiu, ainda em janeiro de 2003, quando a população e a mídia saudavam, com euforia e reverência, o novo presidente. Relembra Raul: “O Presidente não podia aparecer em público; uma multidão estava sempre a postos para pedir um autógrafo, tirar fotos ou, ao menos, tocá-lo”. Percebendo que o maior líder nacional era tratado como um astro pop, Raul realizou as primeiras anotações: fazer um Lula de pelúcia, entregá-lo a população deslumbrada e deixar ou esperar o homem trabalhar.
Segue o artista: "Comecei a fazer os primeiros desenhos em dezembro de 2004. De lá para cá, muita coisa mudou. O que era apenas um trabalho de arte cheio de ironia e bom humor se transformou num brinquedo assassino. Parece que o PT assumiu o governo para destruir o país. Lula é um personagem desorientado. A realidade mais uma vez superou a ficção. As piadas já chegam prontas: dinheiro na cueca, instintos primitivos, um tesoureiro chamado Jacinto Lamas, um publicitário-Kojak e um bispo-deputado carregando malas de dinheiro. O governo é um prato cheio para os humoristas, seria cômico se não fosse trágico".
Durante o seu curso de realização, o projeto luladepelucia ganhou admiradores e colaboradores. Os artistas Barrão, Carlos Vergara, Fábio Cardoso, Lenora de Barros, Luiz Zerbini e Marcos Chaves criaram as obras "a quatro mãos" que integram a exposição. André Eppinghauss, Daniela Labra, Fausto Fawcett, Marcelo Pereira, Paulo Reis, Piu Gomes e André Sheik, esceveram os textos que seguem abaixo:
NINGUÉM SABIA
Este trabalho foi apresentado a mim por Raul Mourão em julho deste ano. Naquele agradável almoço em Ipanema, eu me tornara mais um dos privilegiados a saber. Se poucos sabiam, muitos vão concordar: luladepelúcia é uma obra visionária. Começou como piada na semana seguinte a da posse do Presidente e quase três anos depois tem potencial para ser a melhor síntese artística da ressaca ética e moral que o país atravessa atualmente, que transformou a TV Câmara num fenômeno de audiência, e conseguiu elevar o neto do Coronel e o filho do Prefeito a expoentes da honestidade. Prefiro usar a palavra ressaca pois sabemos que a crise não é de hoje. Assim como a corrupção não é um mal exclusivo do Brasil, tampouco está restrita à esfera pública. Corrupção é como câncer, aids ou gripe: uma doença que a humanidade criou e com a qual as sociedades se acostumaram a conviver. Luladepelúcia não ataca só os sintomas, mas faz pensar sobre a causa. Existe política sem politicagem? Existe poder sem negociata? Existe mentira sem mentiroso? Existe corrupto sem corruptor? Existe eleição sem um bom argumento publicitário?
A esperança venceu o medo e eu estou cada vez mais convencido da minha inocência. Juro que não sabia. Raul não sabia. O Zé não sabia, Inácio não sabia, nem a Maria. Estamos todos perplexos, carentes, desgovernados. Brasil 0, Caixa 2. Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra. Mas cuidado que o boneco é de pelúcia e o telhado é de vidro. Ou você não sabia?
Andre Eppinghaus
Carioca, tricolor, empreendedor criativo.
LULADEPELÚCIA
Ao contrário do que pode-se imaginar, a série criada por Raul Mourão com base na imagem do presidente Luís Inácio Lula da Silva, não é um ataque indignado ao escândalo político que se instalou no país desde junho de 2005.
A idéia da série luladepelucia surgiu ainda em janeiro de 2003 - quando a população e a mídia saudavam o novo presidente com euforia. Como relembra Mourão, “o presidente não podia aparecer em público, pois uma multidão estava sempre a postos para pedir um autógrafo, tirar fotos ou ao menos tocá-lo”. Percebendo que o maior líder nacional era tratado como um astro pop, Mourão lançou a idéia: fazer um Lula de pelúcia, para entregar a população deslumbrada e deixar o homem trabalhar em paz. Em 2004, após um ano de piadas, a história transformou-se em trabalho de arte.
Em boa parte de sua pesquisa, Mourão se utiliza da ironia e do humor. Aqui, outra vez essas características surgem, antecedendo uma denúncia de fato. Seus trabalhos em geral enfocam elementos do cotidiano urbano e da esfera pública, tais como grades de segurança, o futebol, cães vira-lata, e até artistas pendurados nas paredes da galeria, promovendo uma sutil reflexão sobre sistemas culturais, políticos e sociais.
Além da peça em pelúcia, a série também conta com impressionantes desenhos (grafite sobre papel) do esqueleto do boneco-presidente, e uma animação digital dos processos de construção virtual da escultura-brinquedo que dá nome à série. A animação, que seria um “making of” do trabalho, acabou ganhando autonomia como uma obra pronta, sendo uma das mais intrigantes.
O conjunto de obras a ser exposto são ramificações de uma mesma idéia e um mesmo tema: o boneco felpudo do amigo Lula para, como diria Mourão, a miltância dormir abraçada e a oposição espetar alfinetes de vodu. A fabricação dos bonecos de pelúcia Lula, por processo industrial, permite uma tiragem extensa, e torna a obra metáfora de objeto popular pensado para a alegria e o consumo das “massas”.
A apropriação da imagem de uma personalidade pública e influente, aproxima o trabalho de Raul Mourão ao de artistas que se valem da ironia e do humor para comentar o universo da mídia e seus astros da política ou da cultura, como é o caso do italiano Maurizio Cattelan e do norte-americano Jeff Koons.
Mourão assumiu a piada como arte, mas o momento coincidiu com o vendaval de acusações que assola os jornais, as tvs e as consciências políticas brasileiras. Assim, o tom sardônico da obra foi aumentado pelo próprio contexto midiático e político externo a ela: se, antes dos escândalos, Luladepelucia não passava de ironia, na conjuntura de hoje, e de acordo com as notícias de amanhã, ela pode ser entendida como ataque veemente ou homenagem cândida ao presidente da república.
O trabalho é do artista, mas a sua palavra de ordem ficará aberta ao público e ao desfecho deste mandato presidencial.
Daniela Labra
Crítica de arte e curadora independente
O LULA NÃO É DE VERDADE, O LULA É DE PELÚCIA.
Todos sabem que o Brasil é um abismo que nunca chega. Um paiol de crises e vertigens calcadas em escravidões, colonialismos, plutocracias patrimonialistas, enfim, núcleos de excelências cercados por forças do atraso burocrático, ou da incompetência mais escancarada e cara de pau. Somos como a região da Trácia no império romano, região distante e equivocada quanto a sua importância, ou seja, nenhuma. Paradoxalmente, contrariando Nelson Rodrigues, é da nossa viralatice que devemos ter orgulho, da nossa força periférica de bárbaros do terceiro, quarto e quinto mundo.
Repito, o Brasil é um abismo que nunca chega. Agora que a sombra de Mad Max paira sobre o mundo espetando nossas consciências com imagens de ruínas futuristas, agora que as desintegrações sociais e as catastrofes naturais estão cada vez mais agudas é certo que uma baderna de máfias vai finalmente se mostrar mais poderosa do que todos os estados liberais, sociais-democratas ou blá-blá-blás de organizações sociais variadas.
Nesse contexto, junto com todas as Chinas, Indias, Médios Orientes, Méxicos, Croácias, Patagônias e o cacete a quatro, o Brasil servirá de esconderijo varonil e entreposto para todas as ciências, dinheiros, gente e tecnologias abençoadas pelo tráfico absolutista e mundial. Vivemos na era do absolutismo traficante de tudo e de todos.
A sombra de Mad Max paira sobre o planeta. Ruinas futuristas e uma puta baderna de máfias concentradas vão apunhalar nossa mente com as perguntas: Quem manda em quem? Quem é dono do que? Tú vive patrocinado por quem? Tú não se clonou ainda não mané? Vai no chaveiro da esquina que ele faz isso rapidinho. Ele tem a chave da cadeia genética.
O Brasil é um abismo que nunca chega e tem uma bárbara força periférica, mas o sentimento fofo de carolice socialista advindo de uma herança cristã (e que de certo modo guiou toda modernidadezinha, todos os ismos, iluminismo, positivismo, comunismo, nazismo) acabou levando de roldão as consciências esfarrapadas do tal gigante deitado em berço esplêndido. Daí que um país fascinado por realezas de todo tipo (musicais, infantis) tinha que gerar na política a figura sebastianista de um Salvador da pátria vindo das camadas mais fudidas. Perfeito. O sonho cristão do pobre cheio de calvários que chega ao paraíso do máximo reconhecimento social. Tudo bem se isso não fosse sinônimo de uma grande farsa engendrada nos estertores da ditadura e movida a recalque brabo. Me lembro que na PUC (desculpem mas não resisto a essa lembrança pessoal que ilustra bem o sentimento petista) todas as turminhas de diretório eram enganadoras, preguiçosas e imbuídas de um reacionarismo bem cafajeste protegidos pela blindagem da propaganda comunista anti tudo que fosse democrático. E tome Mao, Lenin, Trotski, Stalin, Fidel e outros pop stars da carnificina que iguala todos. Até Pol Pot valia, contanto que todos fossem iguais na pobreza, na obtusidade e na palermice mental socialista.
Num primeiro momento o PT foi até interessante como organização trabalhista que com a ajuda de judiciários, legislativos e outras entidades atuou como regulador do estado, mas tudo o que eu disse nos parágrafos anteriores foi devorando essa nobre função reguladora das tais injustiças sociais. A saber: a santificação da sua existência via promessas de salvação dos pobres e oprimidos aliadas a um trabalho de satanização burra dos últimos governos brasileiros, de todo comércio mundial, de toda globalização, dos Estados Unidos e etc e tal. É preciso lembrar sempre mano (seja ele Brown ou Chao) que o mundo é um fetiche Americano. O outro fator que corroeu a nobre função reguladora foi justamente a tal cafajestada de diretório aliada com uma tremenda incompetência e um arqueológico recalque que provocou a sanha de tomar conta de todo o estado, varrer do mapa quem não era da turma e ao mesmo tempo comprar todas as turmas.
Lula é a própria encarnação disso tudo. De vibrante orador em pátio-Volkswagen, aposentado há um tempão, ele passou a político mediocre, uma nulidade como deputado, sempre escorado no tal sonho de salvação nacional entranhado nos corações cheios de pelúcia sentimentalóide do povo brasileiro. Acontece que a bocada do PT foi estourada por sucessivos escândalos que geraram uma inédita Tsunami de revelações e desvelamentos da putaria mafiosa que rege o país. Lula é a encarnação da fofura sentimentalóide e da pelúcia pestalozi que assombrou o país via PT durante anos. Agora meu chapa, você, habitante do abismo que nunca chega, não tenha medo, assuma o seu pânico, assuma sua força periférica de bárbaro do quinto mundo e bola pra frente por que ninguém sabe o que vai acontecer com esse continente. Segura o teu apocalipse interior por que ele vai fazer falta daqui a pouco. Esqueça essa história de PT por que ele vai acabar. Esse tipo de partido vai acabar. Muita coisa vai acabar. E principalmente esqueça o Lula. Porque o antro dele já foi invadido e arrasado. Estamos livres dessa papagaiada que nos atormentou durante 20 e tantos anos. Ganhou a presidência para dizer a que não veio. Esqueçam o Lula por que ele não é de verdade, ele é de pelúcia. Tenho dito.
Fausto Fawcett
Carioca de Copacabana, escritor e compositor. Autor de Rio 40 graus, Santa Clara Poltergeit e do show Básico Instinto.
A OBRA DE ARTE NA ERA DA REPRODUTIBILIDADE PROVOCANTE
Se você lembrou de Walter Benjamin e seu famoso ensaio que sacudiu o meio artístico e fez todos repensarem a produção cultural, não foi por acaso. A nova obra de Raul Mourão, luladepelúcia, também parte do princípio da reprodução para causar reflexão. Mas se Benjamin questionava, entre outros aspectos, o valor da obra – não mais singular, e sim disseminada – e o princípio da autoria – numa escala de produção industrial, vêm à tona manifestações artísticas como o cinema, onde o autor deixa, talvez, de ser um só para se fazer coletivo - Raul Mourão mais uma vez se apropria de elementos cotidianos e urbanos para fazer da galeria um espaço lúdico, de sensações inusitadas, que teimam em acompanhar você mesmo depois da saída.
Mourão marca seu trabalho por um olhar carinhoso e ao mesmo tempo crítico da urbis que o cerca. Foi assim com a série Casinhas, que plantava intervenções em pontos inusitados da cidade; com os trabalhos de Futebol, que lançava a paixão nacional em geometrias familiares e incômodas, devido à estranheza dos materiais não-orgânicos que a representavam; e quiçá essa vertente tenha atingido seu ponto mais alto com a asfixia proporcionada por Grades, em que a galeria se tornava espelho e prisão do cidadão comum, sufocado sem consciência pela paisagem-conflito em que vive.
Mesmo quando essa ligação não é tão evidente, ela está lá. Em Cartoon tínhamos o universo do desenho animado, em Rua são reflexões similares às de um João do Rio. Em Lula de Pelúcia Raul Mourão dialoga com o maior ícone produzido pelo Brasil nos últimos tempos. E o faz de maneira afetuosa, pois ao representá-lo como um bonequinho de pelúcia imediatamente o remete para um recanto precioso da interpretação – o tempo perdido da infância, onde protegíamos nossos sonhos traduzidos por nossos brinquedos, ao mesmo tempo em que éramos protegidos por eles das agruras do mundo adulto.
Também vemos aí ecos da relação que se estabeleceu entre a figura política e a nação que o elegeu: nunca se acreditou tanto, nunca tivemos tanta certeza da mudança, nunca torcemos tanto para dar certo. Queríamos, sim, ter um Lula só pra gente, pra poder abraçar e dar carinho para aquele que representava uma nova época para um país tão carente de sonhos e esperanças. E Raul reflete isso enchendo uma parede inteira com seus presidentes de pelúcia – e aí Benjamin reaparece. Porque o impacto dessa imagem começa a desmontar seu próprio jogo de sedução.
Afinal, nos aproximamos e vamos procurar mínimas diferenças entre um e outro; nos afastamos e vamos tentar achar alguma mensagem escondida no desenho formado pelo conjunto; vemos tantos Lulas que começamos a nos perguntar se isso não seria uma bem-humorada crítica à super-exposição do nosso presidente na mídia. No cinema, a repetição de um mesmo plano coloca o espectador numa situação desconfortável, quando rompe o naturalismo imperioso ao qual ele está acostumado e desvenda o processo da construção artística. Do mesmo modo, Raul Mourão, ao multiplicar pela galeria um objeto tão doce e tão representativo dos nossos anseios de felicidade, inaugura a obra de arte na era da reprodutibilidade provocante. Você sai de lá considerando a possibilidade de recusar um bichinho daqueles, se por acaso te oferecessem um. Os últimos acontecimentos, mais o diálogo contido em luladepelúcia, podem deixar um gosto um pouco amargo na boca. Um gosto assim, digamos, de amadurecimento.
Piu Gomes
Cineasta
O BONECO DE DORIAN GRAY
Luladepelucia foi imaginado por Raul Mourão no início do governo Lula. O Brasil vivia, naquele momento, um entusiasmo pela figura do novo mandatário. Tal entusiasmo, inédito na história recente do país, era expresso pelos mais humildes na confiança no presidente-operário; pelos intelectuais, na enfim chegada ao poder do símbolo maior de suas aspirações esquerdistas; e na imprensa, por um adesismo de primeira hora. Agora-a-coisa-vai.
luladepelúcia era então um comentário irônico a tal estado de coisas. Seria um presidente-bibelô, um ursinho barbudo, uma coisa fofa para apertar, abraçar e dormir junto nos momentos de angústia. Um amuleto, por assim dizer.
luladepelucia, no entanto, foi materializado por Raul Mourão no terceiro ano do governo Lula. O clima é outro. O presidente, seu governo e seu partido estão envolvidos numa sucessão de escândalos que aponta para o maior esquema de corrupção que já vimos. Lula já não é o aquele padim ciço de outrora. O rei está nu e o sonho acabou.
Luladepelúcia também sofreu mutações. A aquela ironia à adoração dos primeiros tempos, soma-se a ironia à própria passagem do tempo, potencializando a força da obra. Se repararmos bem, não é mais assim tão fofo. Pensamos duas vezes antes de querer abraçá-lo. Ali há algo de brinquedo-assassino em sua expressão não muito amigável, um gremlin segunda-fase em seus pelos eriçados. Um boneco de Dorian Gray.
Luladepelúcia reafirma a contundência do Raul Mourão de A Grande Área, Grades e Cão Leão. Um soco no olho. Com ternura.
Marcelo Pereira
Designer
UM ELEFANTE INCOMODA MUITA GENTE...
O Brasil é um país onde o Surrealismo não fez escola. O Brasil é um país por demais surrealista, onde o real sempre suplantou a fantasia, para que o sonho e o automatismo pudessem ditar normas. A ópera bufa foi montada desde a chegada dos portugueses: um teatro religioso para um povo alheio aquela encenação. São quinhentos anos na busca de encontrar o outro, alteridade desgovernada, diria. Hoje a realidade deixa de ser surreal para ser supra-real. Os fatos poderiam ter saído de uma comédia de erros de João Caetano, ma está mais para uma comédia popular de João Bettencourt intitulada “Dólar, cuecas, carecas, mensalões e afins”, pois nunca chegaria a uma fina ironia wildeana da importância de ser honesto.
É desta visão nada plausível que o artista Raul Mourão elabora uma crítica contundente, risível até, mas não menos ácida sobre algo triste e trágico... Enfim, o artista vive a realidade que é comum a todos e como tem a capacidade da transubstanciação, oferece-nos arte. Na mostra luladepelúcia, na galeria Lurixs, o artista expõe uma instalação com bonecos de pelúcia, desenhos em grafite sobre papel e trabalhos a 4 mãos, todas as obras tomam a figura do Presidente Lula como ponto de partida. Não se trata de nenhuma homenagem, mas sim de um desagravo.
Da mesma maneira que Raul utiliza-se de objetos do cotidiano que nos ferem a visão e nos agridem – como as grades que poluem os espaços urbanos - o artista se apropria de uma imagem que nos invade a retina, toma conta de nossa vida. Ante a resignação, o humor inteligente usado como arma. A série, segundo o artista, surgiu ainda em janeiro de 2003, mas de lá pra cá muita coisa mudou. Dou voz a Mourão: “O que era apenas um trabalho de arte cheio de ironia e bom humor se transformou num brinquedo assassino. Parece que o PT assumiu o governo para destruir o país. Lula é um personagem desorientado. A realidade mais uma vez superou a ficção. As piadas já chegam prontas: dinheiro na cueca, instintos primitivos, um tesoureiro chamado Jacinto Lamas, um publicitário-Kojak e um bispo-deputado carregando malas de dinheiro. O governo é um prato cheio para os humoristas, seria cômico se não fosse trágico".
A charada foi desvendada. Vendido no camelódromo luladepelúcia corre o risco de se transformar em boneco de vodu, personagem do despacho na encruzilhada, coberto de alfinetes, sem cabeça, malhado como Judas na Sexta Feira Santa. Hoje o personagem está a salvo, abrigado na galeria, mas ainda nos assombra vê-los autômatos, clonados, desorientados com expressões estranhas de Chucks. Retrato de nau a deriva, afinal “morre o homem, fica a fama”, diz a canção. Melhor, fica a arte, diria Raul Mourão com seu exército de lulasdepelúcia. Um souvenir do nosso tempo. A esperança é a última que morre, o esperançoso morre antes.
Paulo Reis
Crítico de arte e curador independente
UM TRABALHO DE CORAGEM
luladepelúcia é um trabalho corajoso. Fazer arte requer uma certa dose dessa qualidade, mas nem todos os trabalhos de arte trazem essa característica. Raul Mourão se arriscou e isso por si só já é muito bom. Fazer arte não é brincadeira, embora possa ser divertido e irônico em muitos casos. Olhar o presidente querido do Brasil feito um boneco suscita inúmeras metáforas e, como bom trabalho que é, luladepelúcia carrega inúmeras delas e mais algumas que o próprio Raul provavelmente não pensou. Eu poderia citar diversas, no entanto, não quero restringir a interpretação do espectador. Mas vou dizer porque o acho um trabalho de coragem.
A representação de uma figura de poder não é novidade, seja na história da arte em encomendas de retratos, pinturas ou estátuas ou satirizada em charges de jornal. Lula não pediu para ser transformado em boneco sob nenhum aspecto e, até agora, nenhum publicitário encomendou a peça ao departamento de propaganda do governo ou a alguma agência que presta serviço ao mesmo com dinheiro transitando por caminhos subterrâneos, só que foi isso que acabou acontecendo: o presidente virou um boneco. Essa provocação que o trabalho traz nos faz rir, não só da situação, como de nós mesmos, seja na vontade de espancar o boneco-presidente compartilhada entre alguns congressistas ou no desejo militante que alguns têm de dormir abraçados ao mesmo.
Os desenhos que também compõem a exposição, feitos com lápis sobre papel, foram executados mecanicamente com o uso de uma máquina de recorte automatizada e alimentada com os estágios da construção digital em três dimensões do boneco e, apesar da aparência de uma impressão eletrônica, foram executados no contato do grafite com a superfície do papel e com poucas e pequenas interferências feitas posteriormente pela mão de Raul ou dos artistas convidados. São falsos desenhos verdadeiros, ou desenhos verdadeiros falsificados. Eles nos revelam o processso de construção do boneco-presidente e essa percepção pode ser útil na tentativa de compreensão de outras situações, artísticas ou não, inclusive as políticas.
Os artistas e seus trabalhos são reflexo da percepção da realidade que nos cerca e os corajosos não são oportunistas, antes sim, têm um olhar afiado sobre o mundo e os acontecimentos e transformam isso em arte inteligente, sensível e/ou bela, o que nem sempre é uma atividade gloriosa. Raul Mourão, com o seu luladepelúcia, vai, ludicamente, colher mel sem medo de sair picado.
André Sheik
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