-B-A-B-I-L-A-Q-U-E-S-
WALY SALOMÃO

29 out -18 dez 09

Horários de exposição
14 - 19 h

 
Babilaques: poesia e arte

Babilaques: poesia e arte

As vinte séries de fotografias intituladas Babilaques, realizadas por Waly Salomão e Marta Braga em Nova Iorque, no Rio de Janeiro e em Salvador de 1975 a 1977, constituem forma rara e surpreendente da relação entre poesia e arte. Espanta-nos, hoje, o fato de não terem sido direcionadas ou absorvidas pelo circuito de artes plásticas, permanecendo, ao mesmo tempo, pouco conhecidas pelos poetas e o mundo literário. Isso, contudo, não era de todo imprevisível, se consideramos o quanto Waly Salomão afirmou e defendeu o sentido de seu processo criativo em poesia, que definia como caminho sinuoso, enviesado, meândrico, polissêmico, e sobre o qual gostava de insistentemente replicar e retrucar.

Ao reunir pela primeira vez na exposição Babilaques: alguns cristais clivados essa parte pouco conhecida de sua obra, cuja grafia -B-A-B-I-L-A-Q-U-E-S- ele gostava de utilizar e desenhar, para salientar o significado das imagens produzidas, lembramos do poeta extremamente culto que soube bem apreciar e incorporar à sua poética exemplos da arte e dos pensamentos sobre a arte que talharam a sua sensibilidade. Assim, torna-se evidente que sua poesia se fez e permaneceu muito ligada não só à pintura e à escultura, como também à riqueza do espírito libertário próprio das vanguardas artísticas do século XX, que contribuiriam fortemente para levá-lo a expressar-se não apenas em prosa e verso.

Trata-se, portanto, de expressão “amalgâmica” envolvendo a inter-relação entre as diferentes artes e realizada em fotografias que registram, em ângulos e luzes particulares, espacializações de palavras, construções e desconstruções semânticas, ideogramas, textos manuscritos, montagens, desenhos e colagens, todos eles executados em cadernos pautados de espiral de diferentes formatos, intencionalmente assumidos como valores estruturais. De um lado, os cadernos de espiral como objeto elementar, simples, banal; de outro, uma operação realizada nesse suporte de proposição poético-visual extremamente audaciosa e sofisticada: a mise-en-scène que se constrói quanto o poeta situa para a câmera sua escrita de objetos que configurarão múltiplas leituras e significados.

Ao lado da forma gestual e espontânea de diferentes versões de sua caligrafia, atuam valores plásticos como cor, plano, espaço, luz e tempo, inseridos em colagens de imagens impressas, objetos e ambientes. O trabalho da câmera , realizado quase sempre por Marta Braga, enquadra os cadernos em situações escolhidas, muitas vezes inusitadas, ao ar livre ou em ambientes montados para o momento do clique e o flagrante do jogo cinético-visual. Vêem-se os cadernos em calçadas de diferentes cidades, em pisos, gramas, superfícies de pedra, sobre roupas, palhas de palmeira, lençóis de cama, remos de barco, ao sol, ou mesmo em camadas, uns sobre os outros; o caderno ALTCADERNARO ou o caderno ALTDUPLICADERNARO.
Reveladas em slides de 35 mm, as fotografias, algumas das quais publicadas pelo próprio Waly em revistas de poesias ou projetadas em eventos animados por suas eloqüentes leituras de textos, distribuem-se em grupos sob um título específico. Muitas vezes, é o próprio título que dá forma final ao conjunto de imagens, como em KOAN, MONDRIAN BARATO, CONSTRUTIVISTA TABARÉU, BRASILLY e AMALGÂMICAS. Mas trata-se sempre, como o poeta repisava, de uma operação “polissêmica”, uma mescla pessoal de signos, idiomas e linguagens, que se fundem em um exercício de imagens sobre imagens.

Waly estabelece, com razão, um diferencial em relação à chamada poesia visual, categoria estanque e variante da arte conceitual, que tentava, na mesma década em que os Babilaques foram feitos, superar conflitos das vanguardas modernistas, por intermédio de desdobramentos em minimal art, performance art, body art, earth works, land art, entre outras manifestações.


***


Creio que, para entender mais detalhadamente esse viés da obra de Waly Salomão, é preciso lembrar de alguns momentos de sua trajetória como poeta, entre os quais a formação no calor das vanguardas baianas no início dos anos 1960 e seus primeiros textos após a mudança para o Rio de Janeiro e São Paulo.

Durante os anos em que viveu na Bahia, como estudante de direito e teatro, inserido no movimento político estudantl, Waly participou de excepcional período cultural e da modernização institucional das artes e ciências do país. De 1958 a 1964, as vanguardas, presentes nas artes plásticas, na música experimental, na dança, no teatro, no cinema, na museologia, na antropologia e na educação, não só formaram um núcleo de possibilidades de interação entre as artes, como também iniciaram uma experiência pioneira de descentralização cultural ante a força hegemônica do eixo Rio de Janeiro–São Paulo. Isso certamente marcou profundamente talentos formados na província, como Waly Salomão, servindo de base para a articulação de novas idéias e posições culturais, que, nos anos seguintes, enfrentariam o gravíssimo conflito social decorrente dos desafios de sobrevida da livre expressão, amplamente cerceada após a tomada do poder pelos militares.
Dito de outro modo, a partir de 1970, a vida cultural no Brasil se constitui de uma riquíssima e bastante complicada malha de valores, que, de maneira ambígua, limita e enriquece o legado das grandes realizações artísticas e ideológicas ocorridas nas décadas de 1950 e 1960. Essas realizações estiveram, praticamente uma a uma, diretamente ligadas ao balizamento das esquerdas políticas e culturais que lideraram, sobretudo na capital brasileira e nos estados vizinhos, as principais instituições culturais do país, entre as quais universidades, museus, jornais e editoras.

Um dos mais importantes exemplos desse balizamento foi o Movimento Neoconcreto (1959–1960), cujos artistas não eram nem tinham sido militantes políticos de esquerda, mas tiveram seu projeto apoiado e difundido pelo melhor das esquerdas culturais na época. Esse apoio e difusão foram tão marcantes que, hoje, é válido indagar se o destino desses artistas teria sido o mesmo, se desacompanhado da participação, sem precedentes na história da imprensa brasileira, do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Não é inconveniente mencionar que, nesse período, circulavam, apenas no Rio de Janeiro, ao menos sete jornais diários: Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Correio da Manhã, O Globo, A Última Hora, Tribuna da Imprensa e O Dia. Todos eles possuíam seções para a crítica de artes plásticas, cinema, teatro, música e literatura, em que nomes como Mario Pedrosa, Ferreira Gullar, Reynaldo Jardim, Oliveira Bastos, José Guilherme Merquior, Roberto Pontual, José Lino Grünevald, Paulo Francis e Millor Fernandes cobriam regularmente o panorama cultural da cidade.

***

A geração que formaria a manifestação posteriormente chamada de contracultura herda o enfraquecimento que atingiu as esquerdas culturais, ou seja, aquelas que já não sabiam como absorver o novo teatro, a nova música, a nova poesia, as novas idéias e as novas manifestações da música popular, que provavelmente teve no momento tropicalista, em 1967, o seu mais acirrado debate.

A exposição organizada pelo artista plástico Carlos Vergara no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1971, curiosamente intitulada Exposição, é um momento muito significativo da relação de Waly Salomão com as artes plásticas. Tratava-se de um evento experimental que incluiu artistas que jamais haviam participado de exposições de arte. Waly mostra um único trabalho, a fotografia, feita por Bina Fonyat, de um poema visual, em que a palma de sua mão aparece aberta sobre típicos suvenires cariocas (pratos pintados com papagaios, asas de borboleta, palmeiras, o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor), e sobre ela uma curta frase oswaldiana: “Conheço o Rio de Janeiro como a palma da minha mão,/ cujos traços desconheço”.

Assim, o artista começa a explorar as possibilidades de poemas visuais e experimentais com palavras e objetos. É dessa época (1971–1972) sua parceria comigo e Óscar Ramos em trabalhos ambientais com palavras ampliadas, entre os quais as palavras-destaque -FA-TAL- e VIOLETO, utilizadas como cenografia do espetáculo musical Gal a todo vapor, e o poema “ALFA ALFAVELA VILLE”, para o qual criamos letras gigantes levadas para uma performance coletiva de jovens artistas na praia de Copacabana. Essa performance foi fotografada por Ivan Cardoso para a revista Navilouca, publicada logo depois por Waly e Torquato Neto. Ainda nessa época, ele realiza com José Simão, em diferentes favelas do Rio, o filme inacabado Alfa Alfavela Ville, apresentado pela primeira vez nessa exposição.


***

Quais seriam, então, as escolhas da arte na trilha oblíqua e não programada de Waly Salomão? O que forma o seu repertório de arte, pintura, escultura, cinema, idéias e pensamentos finamente escolhidos, e que ele teria elegido como afinidades fundamentais?

Se quisermos apreender o cerne de sua persona artística, é possível rastrear o lirismo sublime dos desenhos e das pinturas de Paul Klee; as abstrações de Wassily Kandinsky; os poemas caligramas de Guillaume Apollinaire; os relevos, a poesia e as formas orgânicas de Jean Arp; as assemblages e os quadros Merz de Kurt Schwitters; as pinturas e os poemas de Francis Picabia; as obras de Piet Mondrian, Marcel Duchamp, Alexander Rodchenko, Laszlo Moholy-Nagy, Man Ray, Dziga Vertov, Sergei Eisenstein, Bertold Brecht e Jean-Luc Godard; as vanguardas do Brasil; e, enfim, tudo o que se quis e se fez como autonomia da arte no século XX, e que estimularia, mas não de modo formal ou mesmo estilístico, a expressão poética e o experimento livre que deram origem aos Babilaques.

À diferença da visualidade da poesia concreta e de seus postulados e programas, os Babilaques se inclinam para uma afirmação da subjetividade e da vida, de um ideário artístico individual que se constitui ao abraçar livremente a idéia de interação entre as artes. Algo bem próximo do sentido experimental assumido pela arte brasileira desde o Movimento Neoconcreto, com o qual Waly Salomão manteve diálogo estreito, em particular com Hélio Oiticica, que foi um dos primeiros leitores e entusiastas do manuscrito que, em 1972, se tornaria o livro Me segura qu’eu vou dar um troço.
Waly logo percebeu a complexidade dos conflitos artísticos e ideológicos que marcaram a fissura conceitual entre o Concretismo e Neoconcretismo, extraindo para si qualidades de ambos e não deixando pesar-lhe paternidades ou reverências, que algumas vezes podem inibir a exploração de expressões individuais. Sua parceria editorial com Torquato Neto na revista Navilouca representou um momento-síntese da visão de um grupo de poetas e artistas que “apostavam” em um respiradouro, em um meio de superar os conflitos ideológicos que incidiam sobre todas as expressões artísticas da época. Se não, como entender a frase: “pelo açougue, também se chega a Mondrian”, de Haroldo de Campos?

Os muitos cadernos de Waly Salomão com escrituras, grafias e desenhos não são manuscritos passíveis de transcrição para tipografias ordenadas e diagramadas em páginas de texto impressas. São antes objetos poéticos que ele elaborou sem influência formal de seu repertório artístico. Por isso, não permitem o fetiche ou o culto do “caderno de artista” ou dos bastidores de criação.

Os Babilaques se iniciam quando ele vai viver em Nova Iorque, deixando para trás o peso dos conflitos ideológicos enfrentados no Brasil. Na metrópole norte-americana, encontra condições para realizar o que, de maneira lírica, anunciara no capítulo “The beauty and the beast”, de Me segura q’eu vou dar um troço: o ideograma KLEEMINGS, isto é, Paul Klee + E. E. Cummings = “momento de limpeza”. Literalmente, um outro momento “na esfera da produção de si mesmo”; desta vez, integralmente por meio da arte e da poesia.

Luciano Figueiredo, Agosto 2007
 
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BABILAQUE SOL CRU I. No verão ... é habitada pelos deuses- Waly Salomão, 1976
ampliação fotográfica a partir de slide 35mm
40 x 60 cm
Crédito: Marta Braga
Trabalho disponível para venda
Imagens da exposição
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